Impacto do Transplante Renal na Variabilidade da Frequência Cardíaca: Uma Revisão Narrativa

Autores

  • Everton Silveira Macedo Hospital Regional do Cariri, Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil.
  • Maria Cléa de Sá Roriz Neves Hospital Regional do Cariri, Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil.
  • Hermes Melo Teixeira Batista Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), São Paulo, Brasil. https://orcid.org/0000-0002-5165-4333
  • Ronaldo de Matos Esmeraldo Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, Ceará, Brasil. https://orcid.org/0000-0001-6327-9991
  • Romero de Matos Esmeraldo Hospital Geral de Fortaleza, Ceará, Brasil.

DOI:

https://doi.org/10.14295/idonline.v20i80.4345

Palavras-chave:

Sistema nervoso autônomo, Insuficiência renal, frequência cardíaca, transplante renal

Resumo

A doença cardiovascular é a principal causa de mortalidade em pacientes com doença renal em estágio terminal (DRET), um risco incipiente, que muitas vezes se materializa antes dos indícios de comprometimento da função cardiovascular. O transplante renal inicia um processo de recuperação complexo e multifásico, no qual a responsividade funcional é restaurada antes da normalização dos índices basais da VFC Métodos: Foram revisados estudos prospectivos, observacionais e transversais que utilizaram monitores de frequência cardíaca (como o Polar H10) e monitoramento Holter para coletar dados de intervalos R-R. As análises incluíram domínio do tempo (SDNN, RMSSD), domínio da frequência (LF, HF), parâmetros não lineares (SD1, SD2) e análise de quantificação de recorrência (RQA). As populações estudadas variaram de receptores de transplante renal comparados a doadores saudáveis até acompanhamentos longitudinais de até 5 anos. Resultados: Pacientes com DRT apresentam disfunção autonômica substancial, evidenciada por uma VFC marcadamente inferior à de controles saudáveis em quase todos os domínios (p < 0,001). Surpreendentemente, a VFC pode sofrer um declínio adicional nos primeiros 5 a 7 dias após a cirurgia. Observou-se redução significativa no SDNN, na entropia amostral e na potência total, indicando que o transplante não restaura imediatamente o equilíbrio autonômico e pode até agravar a instabilidade inicial devido ao estresse cirúrgico e medicamentos. Os achados são conflitantes. Alguns estudos relatam melhoras na regulação autonômica e na sensibilidade barorreflexa após 3 a 12 meses. No entanto, outros indicam que a VFC permanece inibida ou apenas parcialmente recuperada mesmo após 6 meses. Existe uma correlação positiva entre uma maior taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e uma VFC mais ampla, sugerindo que a melhoria da função do enxerto influencia diretamente a recuperação autonômica. Embora a redução da VFC seja um preditor estabelecido de morte súbita cardíaca e mortalidade em pacientes em diálise, os parâmetros registrados especificamente no período perioperatório não se mostraram ferramentas eficazes para estratificar o risco de morte cardíaca a longo prazo (5 anos). Conclusões: Pacientes com DRT exibem um comprometimento severo da VFC que persiste e pode piorar no período pós-transplante imediato. Embora o transplante renal bem-sucedido ofereça o potencial para a restauração da homeostase fisiológica, a normalização da função autonômica é um processo gradual e individualizado. Estes achados reforçam a importância do monitoramento contínuo da VFC para avaliar a saúde cardiovascular e a necessidade de intervenções que otimizem a recuperação autonômica nesta população.

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Biografia do Autor

Everton Silveira Macedo, Hospital Regional do Cariri, Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil.

Graduação em Medicina pela Faculdade Estácio de Medicina de Juazeiro do Norte. Cirurgião Geral pela Universidade Federal da Paraíba - Hospital Universitário Lauro Wanderley. Urologista - Hospital Getúlio Vargas - SUS, Pernambuco, Brasil.

Maria Cléa de Sá Roriz Neves, Hospital Regional do Cariri, Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil.

Graduada em Medicina pela Faculdade de Medicina de Juazeiro do Norte (FMJ), com Residência Médica em Cirurgia Geral realizada em João Pessoa - PB. Diretora Técnica do Hospital Regional do Cariri (Juazeiro do Norte - CE).

Hermes Melo Teixeira Batista, Faculdade de Medicina do ABC (FMABC), São Paulo, Brasil.

Doutorado em Ciências da Saúde pela Faculdade de Medicina do ABC, Brasil. Coordenador Médico do Complexo Regulador. Secretaria de Saúde do estado do Ceará.  Médico do Hospital Regional do Cariri, Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil.

Ronaldo de Matos Esmeraldo, Universidade Federal do Ceará (UFC), Fortaleza, Ceará, Brasil.

Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Mestrado em Cirurgia Transplante Renal pela University of Oxford, Inglaterra. Médico da Hospital Geral de Fortaleza, Cerá, Brasil.  Médico do Hospital Geral de Fortaleza , Brasil.

Romero de Matos Esmeraldo, Hospital Geral de Fortaleza, Ceará, Brasil.

Graduação em Medicina pela Universidade Federal do Ceará. Residência médica em Cirurgia Geral pela Casa de Saúde São Raimundo, Fortaleza, Ceará.  Residência em Cirurgia Geral pela Loyola University Medical Center (Foster McGaw Hospital), Maywood, Ill, USA. Médico do setor de Cirurgia Geral e Transplante Renal do Hospital Geral de Fortaleza, Ceará, Brasil. 

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Publicado

2026-02-28

Como Citar

Macedo, E. S., Neves, M. C. de S. R., Batista, H. M. T., Esmeraldo, R. de M., & Esmeraldo, R. de M. (2026). Impacto do Transplante Renal na Variabilidade da Frequência Cardíaca: Uma Revisão Narrativa. ID on Line. Revista De Psicologia, 20(80), 61–73. https://doi.org/10.14295/idonline.v20i80.4345

Edição

Seção

Artigo de Revisão