Impacto do Transplante Renal na Variabilidade da Frequência Cardíaca: Uma Revisão Narrativa
DOI:
https://doi.org/10.14295/idonline.v20i80.4345Palavras-chave:
Sistema nervoso autônomo, Insuficiência renal, frequência cardíaca, transplante renalResumo
A doença cardiovascular é a principal causa de mortalidade em pacientes com doença renal em estágio terminal (DRET), um risco incipiente, que muitas vezes se materializa antes dos indícios de comprometimento da função cardiovascular. O transplante renal inicia um processo de recuperação complexo e multifásico, no qual a responsividade funcional é restaurada antes da normalização dos índices basais da VFC Métodos: Foram revisados estudos prospectivos, observacionais e transversais que utilizaram monitores de frequência cardíaca (como o Polar H10) e monitoramento Holter para coletar dados de intervalos R-R. As análises incluíram domínio do tempo (SDNN, RMSSD), domínio da frequência (LF, HF), parâmetros não lineares (SD1, SD2) e análise de quantificação de recorrência (RQA). As populações estudadas variaram de receptores de transplante renal comparados a doadores saudáveis até acompanhamentos longitudinais de até 5 anos. Resultados: Pacientes com DRT apresentam disfunção autonômica substancial, evidenciada por uma VFC marcadamente inferior à de controles saudáveis em quase todos os domínios (p < 0,001). Surpreendentemente, a VFC pode sofrer um declínio adicional nos primeiros 5 a 7 dias após a cirurgia. Observou-se redução significativa no SDNN, na entropia amostral e na potência total, indicando que o transplante não restaura imediatamente o equilíbrio autonômico e pode até agravar a instabilidade inicial devido ao estresse cirúrgico e medicamentos. Os achados são conflitantes. Alguns estudos relatam melhoras na regulação autonômica e na sensibilidade barorreflexa após 3 a 12 meses. No entanto, outros indicam que a VFC permanece inibida ou apenas parcialmente recuperada mesmo após 6 meses. Existe uma correlação positiva entre uma maior taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) e uma VFC mais ampla, sugerindo que a melhoria da função do enxerto influencia diretamente a recuperação autonômica. Embora a redução da VFC seja um preditor estabelecido de morte súbita cardíaca e mortalidade em pacientes em diálise, os parâmetros registrados especificamente no período perioperatório não se mostraram ferramentas eficazes para estratificar o risco de morte cardíaca a longo prazo (5 anos). Conclusões: Pacientes com DRT exibem um comprometimento severo da VFC que persiste e pode piorar no período pós-transplante imediato. Embora o transplante renal bem-sucedido ofereça o potencial para a restauração da homeostase fisiológica, a normalização da função autonômica é um processo gradual e individualizado. Estes achados reforçam a importância do monitoramento contínuo da VFC para avaliar a saúde cardiovascular e a necessidade de intervenções que otimizem a recuperação autonômica nesta população.
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